quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Dica de Filme: "O Ponto de Mutação"


Austríaco, de Viena, Bernt Amadeus Capra mudou-se para os Estados Unidos – especificamente para Los Angeles – quando o exército de seu país quis recrutá-lo. Embora formado em Arquitetura, ou talvez por essa razão, Bernt Capra começou a trabalhar na Warner Bros com desenho. No entanto, foi quando retornou para a Europa que iniciou sua trajetória cinematográfica de fato. Anos mais tarde, voltou para a América e consolidou sua carreira como designer de produção em Hollywood, continuando também a dirigir suas produções. Desta vez, já casado e com um filho, Bernt passa a morar em Malibu onde reside até hoje.[1]
Filmado no castelo medieval do Mont Saint-Michel, na França, “O Ponto de Mutação” ou no nome original – Mindwalk – é um drama considerado intelectual de Bernt Capra. Baseado na obra “The Turning Point” de seu irmão, o físico Fritjof Capra. O filme, lançado em 1990, destaca um debate entre três pessoas de mundos profissionais bem distintos: um poeta, um político e uma cientista da Física. O diálogo gira em torno da percepção do mundo por essas pessoas e desemboca em questões sobre o tempo, sobre a evolução da ciência, bem como as conexões que formam a grande teia da vida.
O filme começa com a chegada de um político (Jack), candidato derrotado a presidente dos EUA, à França para um encontro com um amigo poeta (Tommaso) também americano, residente na Europa. Ao visitar um castelo medieval, os dois amigos se encontram com uma Sonia Hoffmann, uma ex-cientista que vive em conflito com a filha e desiludida da ciência tal como o é nos dias atuais.
A maior parte do filme, a cientista coloca seu posicionamento acerca de vários aspectos da evolução da ciência e da sua percepção da vida. O primeiro ponto destacado foi sobre a questão do tempo: o surgimento do relógio traz a primeira ruptura do homem com a natureza à medida que esse instrumento tornou-se o arquétipo do cosmos e, de algum modo, foi confundido com ele. Dessa maneira, surge então o tempo mecânico, e aqui a cientista enfatiza a importância do pensamento de Descartes e Newton. Descartes foi o pioneiro na perspectiva do mundo como um relógio, e essa chamada de visão mecanicista do mundo foi dominante por muito tempo. Sonia chama a atenção para a necessidade de mudança de percepção: o mundo evoluiu, a ciência evoluiu. O mundo já não deve ser mais visto como um relógio, como algo mecânico.
O segundo ponto abordado pela cientista foi sobre a grande rede. Ela cita o exemplo da superpopulação no mundo e especifica o problema da mortalidade infantil visto, muitas vezes, como um problema particular. Para a física, essa dificuldade faz parte de um sistema bem maior envolvendo economia, meio-ambiente, aspectos sociais, entre outros. Não há como acabar com a mortalidade infantil nos países antes chamados de Terceiro Mundo como um problema isolado. Tudo está integrado: há diversas conexões entre tudo o que acontece a todo instante, e em todo lugar. A cientista sugere mudança do todo e não das partes. Que sejam mudadas, segundo ela, as instituições, os ideais e os valores.  Nesse ponto, ela também faz uma crítica à medicina atual que prefere a intervenção que a prevenção. Sugere ainda que, se houvesse educação não se precisariam gastar milhões com tantas cirurgias: estas são mais caras que aquela. No entanto, o político Jack destaca que o interesse das classes dominantes prevalece e mesmo quando os políticos querem trabalhar em prol da educação e das mudanças, o empenho dos que detêm o poder econômico os supera. Mais a frente, os três dialogam sobre a responsabilidade das produções científicas. A cientista mostra-se pesarosa pelo seu invento que causa destruição, enquanto ela o tinha criado para o bem. Aqui, discutem que os cientistas descobrem as coisas e os políticos e que as usam; principalmente, porque fazer ciência é muito caro e quem paga é que decide o que fazer com o seu resultado – o seu uso positivo ou negativo para as pessoas e / ou para o planeta.
A cientista continua a explicar a grande rede a partir da teoria dos átomos – sob a perspectiva do tempo a partir do intervalo entre as partículas. Para Sonia, há uma conexão física entre tudo, bem como uma troca de energia entre as coisas e as pessoas. Nesse sentido, a vida seria feita de um sem número de probabilidades de conexões que estabeleceriam as relações inseparáveis por meio das quais a grande teia seria composta.
Ao continuar a tratar sobre a teoria dos sistemas, Sonia enfatiza a organização da vida, sendo que o um faz parte do todo e o todo depende do um e vice-versa – é a relação de interdependência na teia de relações. Para a física, essa dependência comum é um fato científico e a teia de relações, a cientista a vê como a essência de todas as coisas vivas. Ela continua explicando que a vida é auto-organizadora, segundo a teoria dos sistemas, e que os seres são autotranscendentes e acrescenta que “a dinâmica evolutiva básica não é a adaptação, é a criatividade”. Sonia afirma que para o bem do planeta e das pessoas, a busca obsessiva pelo crescimento precisa ser interrompida. Então, o político questiona qual seria o caminho para a mudança e por onde começar a mudar. A física explica que se as pessoas dessem importância às gerações futuras não colocariam a própria vida e a do planeta em risco. A ausência de preocupação com os que virão é que faz que as pessoas coloquem a vida em perigo. Para Sonia, a teoria de que o “saber é poder” é muito danosa porque diminui consideravelmente as possibilidades dos que ainda nascerão.
Nessa altura do diálogo, o poeta que pouco falou durante todo o diálogo, opina dizendo que tanto a teoria de sistemas ou do relógio, não faz diferença. Para ele, “a vida é muito mais do que qualquer teoria”. Para sentir o universo, é necessário que haja um trabalho interior e que essa conversa dos três o ajudou muito. Além disso, os dois questionam a cientista sobre o relacionamento com a filha e da dificuldade de se aplicar sua teoria. O político pede sua ajuda para seu crescimento nos EUA, mas Sonia não aceita e os três se despedem agradecendo pelo dia impressionante que tiveram.
A partir desse diálogo sobre questões de percepção, sobre o tempo mecânico, do intervalo e questões sobre energia, pode-se fazer uma breve análise dos rumos para os quais caminha a Didática nos dias atuais.  Não há como continuar com o modelo cartesiano de conhecimento fragmentado. Há uma crescente necessidade de um ensino sob perspectiva interdisciplinar.  Segundo Milton Santos,

(...) nas circunstâncias atuais, as técnicas parecem exatamente conduzir a algo que se opõe à vida, com a matematização da existência, e a algo que opõe ao pensamento abrangente, impondo um pensamento calculante, e com este todas as formas de utilitarismos, que conduzem a imediatismos, levando ao banimento da idéia de futuro. Quando, porém, consideramos as técnicas em conjunto com a história possível e não apenas a história existente, passamos a acreditar que outro mundo é viável. E não há intelectual que trabalhe sem idéia de futuro.[2]

Nesse sentido, essa idéia de Santos é convergente com a teoria da cientista fictícia Sonia sobre a preocupação com o futuro. Nessa perspectiva, é salutar que o processo de ensino e da pesquisa caminhe pensando nas gerações atuais em benefício das gerações futuras. Infelizmente, o modelo de conhecimento priorizado no século XXI está longe ainda de ser o ideal: interdisciplinar e de formação do aluno como ser humano e não como máquina. O que se vê hoje é o império do dinheiro e da formação de profissionais cada vez sabendo mais de um ponto minúsculo e menos do todo. O conhecimento do todo – a percepção do conjunto – é habitante de um mundo do ideal. Ainda se fala em mudar a educação (e como se fala!), mas não se pensa em mudar todos os aspectos que influenciam o processo de ensino e a pesquisa, mas sim somente a educação e si, ou só a pesquisa em si mesma. Os problemas que formam a grande teia social, da vida em sociedade são ignorados.
Enquanto não se compreender o homem, a mulher, as pessoas em geral, como seres humanos que estão ligados a tudo pela grande teia de relações e que é preciso muito mais do que resolver um problema para as boas mudanças se efetivarem, o mundo continuará o mesmo: o império dos interesses irá prevalecerá sempre. E as grandes possibilidades, como disse Milton Santos, oferecidas pelo mundo continuarão a ser apenas possibilidades e nunca chegarão a se efetivarem.[3]


[1] Informações do sítio eletrônico www.berntcapra.com. Acesso em 24 de Julho de 2009.
[2] SANTOS, Milton. O professor como intelectual na sociedade contemporânea. Conferência de Abertura do IX Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino, realizado em Águas de Lindóia – SP, de 4 a 8 de maio de 1998.
[3] Resumo da obra cinematográfica (longa) de CAPRA, Bernt Amadeus. O Ponto de Mutação. 1990.

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