quarta-feira, 9 de março de 2011

REFLEXÃO ABREVIADA SOBRE A CONCEPÇÃO MATERIALISTA DA HISTÓRIA: HOBSBAWM EXPLICA

            O objetivo deste pequeno texto é apenas fazer uma breve colocação sobre a importância de Marx para a História. Faz-se necessário esclarecer que a visão que é aqui apresentada é consideravelmente resumida, dada a proporção da relevância do tema para estudos diversos. Não se objetiva, portanto, fazer um confronto entre autores sobre as teorias preconizadas por Karl Marx, mas sim apresentar, de maneira sintética, alguns conceitos encontrados na sua obra e que são relevantes para a produção historiográfica e que foram destacados por um historiador marxista.
Feitas as devidas considerações iniciais, voltem-se as atenções para o “Mestre e inspiração” do Historiador: é assim que Hobsbawm designa o papel de Karl Marx para a História. “O Capital” foi tão importante que é difícil encontrar outra grande obra depois dele para comparar! Embora Marx tenha escrito pouco de História, propriamente, ele influenciou até mesmo alguns autores da Escola Francesa que sempre se mostrou cheia de valores nacionalistas.
            Então em que implicaria a relevância da obra de Karl Marx para a produção historiográfica? Hobsbawm responde objetivamente: o método. Esta é a grande dívida que o historiador possui para com Marx: a maneira de perguntar, o método de produzir história. Apesar de não escrever História, Marx justapunha seu método a problematizações concretas e influenciou as produções historiográficas por meio de sua teoria geral da concepção materialista da História.
Grosso modo, esse conceito se desenvolveu quando Marx e Engels criticavam a ideologia e filosofia alemãs. Nesse sentido, a crítica voltava-se contrariamente à “crença de que ideias, pensamentos e conceitos produzem, determinam e dominam os homens, suas condições materiais e sua vida real”[2]. Se se fosse reduzir a uma frase a concepção materialista da História seria assim, segundo Hobsbawm repetida de diversas maneiras: “não é a consciência que determina a vida, mas A VIDA QUE DETERMINA A CONSCIÊNCIA”[3].
            Sendo assim, convém pontuar sobre a concepção materialista da História:
1.      Fundamenta-se no processo concreto de produção;
2.      Abrange relações associadas a esse processo e instituídas por esse modo de produção;
3.      “É o conjunto complexo de relações mutuamente dependentes entre natureza, trabalho, trabalho social e organização social”;[4]
4.      Constitui o fundamento da elucidação da História.
Dessa maneira para compreender o Materialismo é preciso entender que, sob essa perspectiva, para analisar uma determinada sociedade, deve-se levar em conta o seu modo de produção dentro de seu desenvolvimento histórico. É necessário abranger as relações entre homem e natureza e como esta é modificada a partir do trabalho humano, bem como perceber a maneira como a sociedade mobiliza, difunde e dispõe o trabalho.
Por último, é importante ressaltar o conceito de modo de produção para completar esta breve reflexão: um “agregado das relações produtivas que constituem a estrutura econômica de uma sociedade e formam o modo de produção dos meios materiais de existência”[5].
Há muito que se estudar sobre o guia da História – a concepção materialista – segundo Hobsbawm. Desde as teorias sobre as relações de produção, as classes sociais, entre outras, compreender Marx não é uma empreitada que se faz em um livro, muito menos em duas páginas. Mas abarcar tudo sobre Marx não foi o objetivo dessas linhas, e isso já foi dito no início.



[1] HOBSBAWM, Eric. Marx e a História. In: Sobre História. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
[2] HOBSBAWM, Eric. Marx e a História. In: Sobre História. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 174.
[3] HOBSBAWM, Eric. Marx e a História. In: Sobre História. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 174.
[4] HOBSBAWM, Eric. Marx e a História. In: Sobre História. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 175.
[5] HOBSBAWM, Eric. Marx e a História. In: Sobre História. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 179.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Sala de Guerra

Aos interessados em assuntos relacionados à História Militar, especialmente, que dizem respeito à Segunda Grande Guerra, vale à pena uma visita à página www.saladeguerra.net. O administrador Júlio César Guedes atualiza sempre com novidades sobre os remanescentes daquele conflito. Confiram!

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Na cama com Karl Marx ou Karl Marx até na cama?


Às vezes alguns termos ou conceitos me fazem ficar horas queimando neurônios. Há anos que estudo História e conceitos que são pertinentes a essa disciplina. Muitas vezes, são termos que todo mundo está cansado de saber, inclusive eu, mas que quero e quero de novo ouvir ou ler sobre eles para digeri-los melhor.
Dia desses, quem andou me perseguindo foi o tal do Materialismo e a Concepção Materialista da História. Estava estudando para uma prova dessas que eu precisava entender bem sobre essas expressões. Já ouvi alguém dizer que “é um absurdo um historiador receber seu diploma sem ter lido O Capital”. Deve ser mesmo, mas confesso que nunca li. Conheço Marx pelas beiradas, por outros autores, por ouvir dizer, pelas obras que trabalham teoria da História, entre outras.
Deve ser por isso que Marx andou me perseguindo dia desses. Era madrugada, eu já tinha ido dormir fazia tempo. Meu marido, que tinha ficado preparando aulas até àquela hora, foi dormir e eu sonolenta depois de dar um beijo de boa noite, perguntei: “meu bem, tenho uma pergunta muito incômoda para fazer... incômoda para o horário... chega a ser indecente para esse horário...”. Percebi que ele ficou desconcertado... era tarde...  talvez ele tenha pensado, será que eu iria discutir o casamento naquela hora? Nem sei o que ele pensou. Só sei que ele se afastou um pouco e respondeu: “Claro, amor. Pode perguntar”.  Aí perguntei: “Você pode me explicar, como se fosse para uma aluna no colegial, que entende quase nada de teorias filosóficas, o que é materialismo histórico?”
Nessa hora, acho que ele pensou no mínimo que eu tinha surtado. Eram duas da madrugada e com tanta coisa que um casal pode conversar nessas horas, eu perguntava logo sobre Karl Marx! Educadíssimo, como sempre, o meu paciente esposo – para quem não conhece é o Professor Samuel de Jesus Duarte, exegeta bíblico, (graduado em Filosofia, Mestre e Doutor em Teologia Bíblica) – começou a definir o Materialismo e etc... eu digo etc porque eu, já disse, estava sonolenta e nem me lembro direito tudo que ele me falou... só me lembro do outro dia. Eu acordei com vergonha da cena que protagonizei. E pior, por ter levado Marx para nossa cama! Tinha que ter estudado até as duas da manhã para não cometer tal gafe.
Corri logo cedo para meus livros e o primeiro que encontrei foi Eric Hobsbawm, “Sobre História”. O que eu precisava saber mesmo, “bem sabido”, era sobre a Concepção Materialista da História sobre o que o autor da Escola Inglesa fala de maneira bem clara no capítulo “Marx e a História”. Ficamos rindo a semana inteira do episódio. Eu podia falar muitas coisas naquela hora, mas saiu isso. Só eu mesma!
Diante disso, achei prudente pesquisar um pouquinho mais sobre o tema. Na próxima coluna, postarei um texto sobre Marx na perspectiva historiográfica de Eric Hobsbawm. Além disso, desafio aos historiadores e filósofos de plantão: quem já tiver lido “O Capital” pode postar na nossa página seu comentário sobre o livro. Acho difícil de aparecer quem o tenha feito. No entanto, está lançado o desafio.
Por Magdarita Duarte

Nesta coluna de hoje, cedo este espaço ao amigo Gefferson Ramos que pediu para homenagear um amigo historiador. O texto é do próprio Gefferson.

Ao Edeílson, amigo fraterno, amigo eterno

Posso precisar muito bem quando conheci Edeílson Matias de Azevedo. Foi num dos tradicionais Encontros Regionais de História – as nossas ANPUH's – em Juiz de Fora no mês de julho de 2004. Lembro-me até da ocasião. Era um domingo e depois de uma cansativa viagem de Montes Claros a Juiz de Fora, me acomodei, juntamente com os colegas do curso de História da Unimontes, nas instalações que a Universidade havia disponibilizado no Campus, uma enorme sala onde todos dividiam o mesmo espaço. Na sala ao lado também se instalaria os acadêmicos de História da  Universidade Federal de Uberlândia. Logo mais a noite iríamos assistir a conferência de abertura num lugar bem distante do onde estávamos instalado e para chegar até lá o motorista que nos trouxe se encarregou de conduzir a todos de ônibus. Depois de já estarmos quase prontos, e prestes a partir, esperei do lado de fora da sala onde comecei a conversar informalmente com um rapaz, que entre uma pergunta e outra, quis saber como iríamos para a conferência, pois ele, assim como todos da sua delegação, não tinham tido a mesma sorte que a gente. Era o Edeílson, e perguntou sobre a possibilidade de uma carona, o que foi plenamente possível. Como alguns dos nossos não quiseram ir ao evento, mais alguns dos seus se juntaram a nós. O resultado foi que as duas delegações acabaram indo juntas no mesmo ônibus e tudo isso por conta do Edeílson. Esse gesto só mostra uma de suas maiores virtudes: seu enorme espírito coletivo. Tenho certeza que ele jamais se arrogaria como responsável por pequenos gestos como esses, mas que são reveladores da verdadeira alma humana. Era uma pessoa generosa.
Naquele ano de 2004, Edeílson já cursava o mestrado com o instigante tema da Inconfidência Mineira. Não bastasse a afinidade pessoal, houve também uma afinidade temática, já que pretendia estudar a série de revoltas que se passaram no sertão do rio São Francisco em Minas Gerais , mais conhecidas como Motins do Sertão de 1736. Dali em diante nos tornamos amigos, e criamos uma interlocução. Como tinha a intenção de levar esse estudo à frente, dele recebi os mais sinceros estímulos, além do que, em nossas conversas percebi que se tratava de alguém que enxergava na pós-graduação, não uma via de ascensão social, mas uma via de transformação social.
Como preparação para os estudos que pretendia desenvolver redigi o texto “Revoltas Coloniais x Revoltas Provinciais. Rupturas e continuidades (séculos XVIII-XIX)” que foi inteiramente comentado por ele de forma minuciosa. Esse permanece o texto em que devoto minha maior consideração, pois foi fruto do debate, do diálogo, como deveria ser de praxe, não fossem as pressões cada vez maiores por produção, os prazos sempre apertados, o que, muitas vezes, compromete as discussões mais aprofundadas.
Durante seu mestrado, muito modestamente, sugeri bibliografias complementares, enviei artigos que a sua biblioteca não podia contar, e que veio a incorporar no seu texto. Uma pequena contribuição, pois retribuir sua generosidade a altura era mesmo um desafio. Tratava-se de uma alma generosa, sempre disposta a ajudar.
Mas sua colaboração não parou na leitura crítica de um artigo e dele pude ainda contar com os comentários, correções e sugestões no projeto de mestrado que submeti a Universidade Federal Fluminense em 2007, tendo a felicidade de ter sido aprovado. Não tenho dúvida de que foi a partir de contribuições como a dele que pude ser aprovado no mestrado. Dias depois recebi em minha casa sua ligação me parabenizando por esse verdadeiro rito de passagem.
Pela proximidade temática de nossas pesquisas percebo os seus estudos, em especial sua dissertação de mestrado, “Minas Insurgente: conflitos e confrontos no século XVIII”  (2006), inseridos numa vertente mais recente de trabalhos sobre a Inconfidência, mas que nem por isso deixa de dialogar com os clássicos sobre o assunto, situando-os enquanto fruto de uma época, de seu tempo. Isto por que, como o próprio admitira certa vez, para se afirmarem, certos historiadores costumam negar a geração anterior; quando não, determinados trabalhos se mostrarem destituídos de crítica em virtude de interesses corporativos. Naquela que foi a última vez em que nos falamos pessoalmente, quando da ANPUH na UFMG em 2008, disse que se encontrava cansado com esse tipo de postura arrogante que se disseminava cada vez mais na academia. Mostrava-se crítico, não por que detestava esse ambiente, mas porque queria transformá-lo, melhorá-lo, superá-lo.
 
É possível mensurar a sensibilidade do historiador por meio das escolhas que faz e nisso Edeílson Matias tinha visão aguçada. Escolher como tema de estudo para doutorado um personagem  que até hoje é vitima de detratação, cujo nome no país virou sinônimo de traição, é assunto somente para aqueles que possuem antes de tudo muita ousadia. Apenas para se ter uma idéia da opção que fez Edeílson, um dos mais influentes historiadores da atualidade, o pernambucano Evaldo Cabral de Mello, já chegou a admitir em conferências, ainda que de maneira bastante informal, de que se existe um verdadeiro herói na Inconfidência Mineira, seria o Joaquim Silvério dos Reis, para quem se deveria erguer uma estátua, segundo sua opinião. (O comentário foi a mim revelado por um amigo pessoal). É certo que esse importante historiador faz afirmações nesse sentido num tom bastante provocativo, com a finalidade de descredibilizar o movimento mineiro e enaltecer a insurreição pernambucana de 1817, mas isto não deixa de significar uma tentativa de chamar atenção para a necessidade de se estudar figuras como a de Joaquim Silvério dos Reis, que diga-se de passagem não fora uma figura isolada em eventos dessa natureza. Todo protesto tem por essência seu delator que se preze. Tentar reabilitar a pessoa de Joaquim Silvério era o desafio que se propusera Edeílson em sua tese. Perdem todos por não contar com a sua inteligência para retirar da penumbra essas figuras obscuras de nossa história. Tenho certeza de que não faltará candidato a dar seguimento a esse tema. Uma oportunidade terá o que tiver contato com o que deixou escrito a respeito. Oportunista será aquele que vier a desenvolver esse assunto sem mencionar o seu pioneirismo.
Apesar da nossa constante troca de e-mails e bate-papos pelo msn vim a encontrá-lo pessoalmente  apenas na ANPUH de Belo Horizonte em 2008, como foi mencionado, mas pensando bem, por pouco, não nos tornávamos amigos bissextos! Bem que houve oportunidade para que voltássemos a nos falar mais uma vez em 2009, quando, felizmente, em razão de um amigo em comum, o Alessandro Almeida, o trouxe à Montes Claros, onde juntos ministraram um mini-curso na Unimontes. Infortunadamente em razão de contratempos não pudemos nos ver.
 
Esses imprevistos de modo algum enfraqueciam os laços de uma amizade, que se formou praticamente a distância, nem tampouco perdia o ímpeto da discussão acadêmica para quando fosse o caso. A esse respeito posso dizer que perdi um franco interlocutor. Já encontrava-se em suas mãos mais um artigo meu para seus comentários. Era mais um escrito que fizera livre de pressões, de prazos, e pelo puro questionamento que a história nos ensina a conviver. Da nossa derradeira conversa virtual, disse que já estava lendo o texto e que em breve enviaria. Isso se passou numa sexta feira e na ocasião remeti a ele a programação do Seminário de História Política da UERJ, que adorou a idéia e disse que viria, pois ainda tinha algum recurso da sua bolsa. Sua última frase foi “rola hospedagem?”, o que não foi possível responder pois logo se desconectou, mas que agora respondo: “rola” sim hospedagem meu caro amigo Edeílson, nas nossas mentes, pensamentos e corações. O meu muito obrigado por tudo, e você não deveria ter partido dessa maneira, sem nos permitir, sem nos dar sequer a chance de tentar retribuir ao menos um pouco do tanto que fez pela gente. Fique com  Deus!
 
Gefferson Ramos Rodrigues
Rio, julho de 2010.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Dica de Leitura: uma visita à página da Revista de História da Biblioteca Nacional

O historiador e amigo Gefferson Ramos publicou texto 
sobre a Casa das Minas do Maranhão. O trabalho está relacionado 
a manifestações culturais e religiosas afro-brasileiras. 
Para quem aprecia a história do soar dos tambores 
da mãe África, vale a pena conferir! 
Segue o link:


segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

RESENHA: FURTADO, Júnia Ferreira. Chica da Silva e o contratador dos diamantes – o outro lado do mito.



            “Ainda vai chegar o dia de nos virem perguntar: quem foi a Chica da Silva, que viveu neste lugar?”[1] É com essa epígrafe de Cecília Meirelles – Romanceiro da Inconfidência – que Júnia Ferreira Furtado, historiadora, inicia a apresentação do seu livro aqui resenhado. Professora de História da Universidade Federal de Minas Gerais, Furtado é autora de diversas obras relacionadas à História do Brasil no período Setecentista, em especial sobre a região da Minas, tais como: “O livro da capa verde: a vida no Distrito Diamantino no período da Real Extração”; “Homens de negócio: a interiorização da metrópole e do comércio na s Minas setecentistas” e “Diálogos oceânicos: Minas Gerais e as novas abordagens para uma história do império ultramarino português”.
            A obra sobre Chica da Silva apresentou-se como um grande desafio para a autora, já que quebrar estereótipos construídos pelo imaginário e, sobremaneira, pela literatura, pela mídia, não constitui tarefa fácil. Furtado deixa claro, na obra, que o mito de Chica da Silva que ela, a partir de documentos oficiais, faz conhecer “pouco se parece com o mito divulgado pelo cinema e pela televisão”.[2] Sobre os documentos utilizados, a autora ressalva que, por terem sido usados documentos de cartórios, de igrejas, de irmandades, de processos – entre outros – os ditos oficiais não expressão julgamentos, mas sim fatos; e aqui coube à historiadora identificar, nas entrelinhas, emoções ou objetivos que proporcionaram a sua redação.
            Ao abordar a história de Chica da Silva, Júnia Furtado não só conta a história de uma escrava que “virou rainha” na região diamantífera, mas faz também uma profícua análise da trajetória de mulheres forras no mesmo período – século XVIII – e apresenta a possibilidade de se trabalhar sob outras perspectivas o papel da mulher escrava, forra ou mesmo branca na sociedade mineradora colonial.
            Furtado dividiu sua obra que virou Best seller em onze capítulos. Procurar-se-á, de maneira breve, explanar aqui os temas tratados em cada parte, é claro, sem a pretensão de abarcar todo o conteúdo da obra que é de leitura indispensável, na íntegra, para quem almeja compreender melhor a vida e a história da mulher do contratador João Fernandes de Oliveira, antes retratada como a extravagante e a sensual Chica da Silva.
            De maneira, deveras, poética a autora descreve a demarcação geográfica do distrito diamantino incidida no período da corrida aurífera e de diamantes e do processo de ocupação das Minas Gerais. O lugar de extração dos diamantes localizava-se “na região Nordeste das Minas Gerais, que correspondia à comarca do Serro Frio, uma das unidades administrativas em que a capitania fora dividida”.[3] A sede dessa comarca foi constituída onde atualmente é a cidade de Serro, antes Vila do Príncipe, próximo de onde é hoje a cidade de Diamantina. Tratava-se do Arraial do Tejuco, a cancha de Chica da Silva, o “espaço urbano” da região diamantífera.
Furtado descreve o processo de exploração das pedras preciosas e o controle da metrópole sobre o procedimento. Contudo, o ponto principal desse capítulo que é o primeiro, trata-se da descrição do Tejuco na perspectiva social. A sociedade da região dos diamantes era constituída por escravos, pardos e brancos – especialmente portugueses. E apesar de seus princípios terem por base o nascimento e a honra, havia certa mobilidade social. Esse ponto é importante porque Chica da Silva, mulata, ascendeu-se socialmente ao se tornar concubina do contratador João Fernandes de Oliveira. Como Chica, outros conseguiram a mobilidade social, como as mulatas, por meio do “concubinato com um homem branco, ou pelas vendas de tabuleiro e a prestação de pequenos serviços no arraial, como costura e lavagem de roupa, serviços de entrega e até prostituição”.[4]
O segundo e o terceiro capítulo se encontram, de alguma maneira, por tratarem da origem dos dois “personagens” que mais se destacam na história de Chica da Silva: a própria Francisca e o contratador João Fernandes de Oliveira. Furtado delineia a trajetória tanto da escrava como do desembargador até se estabelecerem no Tejuco e provavelmente se encontrarem.
Chica da Silva nasceu de mãe escrava – Maria da costa – e de homem branco, português – Antônio Caetano de Sá, entre 1731 e 1735. Depois de nascer em Milho Verde, na Freguesia da Vila do Príncipe, Francisca parda, como era chamada por um de seus donos, passou por mais de uma propriedade antes de conhecer o contratador de diamantes. Em Portugal, depois de deixar as Minas Gerais, aos treze anos, João Fernandes de Oliveira, com pai de mesmo nome, preparou-se para a carreira eclesiástica e não tendo seu processo de genere concluído, estudou direito canônico e civil. Com o estabelecimento do quarto contrato diamantino, João Fernandes de Oliveira foi enviado por seu pai para “tomar às rédeas” dos negócios na região diamantífera, em janeiro de 1753.
Os capítulos “Diamante Negro” e “Senhora do Tejuco”, igualmente instigantes, tratam do encontro, propriamente dito, com o contratador e da célere ascensão de Chica da Silva: de escrava à senhora de escravos. O ponto-chave dessa parte é o tratamento que a autora dá não só à “promoção” de Francisca, como também de outras escravas forras no distrito diamantino. Porém, Junia Furtado destaca uma peculiaridade de Chica sobre seu processo de alforria que se deu pouco depois de sua compra. A autora lembra que “alforriar um escravo logo após sua aquisição não era atitude freqüente entre os proprietários mineiros.” (...) “Entre as 23 forras que registraram seu testamento no arraial ao longo daquele século, apenas uma foi libertada do mesmo modo que Chica da Silva.”[5] Além disso, o texto traz uma análise detalhada sobre os bens da “personagem”, inclusive da existência de um plantel de escravos que lhe prestava serviços. De acordo com a pesquisa em apreço, por meio de dados do censo de domicílio de 1774, não só Chica da Silva, forra, tinha escravos. De acordo com os testamentos das mulheres forras daquela região, era comum às mulheres forras possuírem escravos, pois deles advinha seu sustento.
Entre os capítulos sexto e nono, Furtado enriquece a obra com minúcias acerca do processo de inserção social da concubina Chica da Silva sob a égide do desembargador João Fernandes. Para se manter como uma figura respeitável no distrito diamantino, o contratador construiu laços de amizade e de apadrinhamentos que o promoviam socialmente e o mantinham no topo da sociedade diamantífera, bem como da lides políticas do Reino. Desses laços que geravam sua ascensão e prestígio também era beneficiada Chica da Silva que deles desfrutava. Sobre essas relações sociais, a autora enfatiza a participação do contratador e, especialmente, de Chica da Silva nas principais irmandades do Tejuco.
Nesses capítulos também, Júnia Furtado destaca o papel de Chica da Silva, antes analfabeta, depois, ao lado João Fernandes, promotora da cultura local. A autora deu destaque para diversas peças que foram apresentadas no Tejuco sob o patrocínio deles, a quem a pesquisadora chamou de “Mecenas”. Além disso, os filhos do casal tiveram boa educação: os homens, depois de receberem a instrução inicial no Tejuco, partiram para o Reino para lá concluírem o processo educacional como os herdeiros de poderosos o faziam; já as meninas, todas foram enviadas para o colégio de Macaúbas, o melhor da capitania das Minas Gerais – “onde teriam garantia de uma vida devota e honrada.”[6]
 Ainda nessa parte, o texto realça a importância de João Fernandes para o crescimento astronômico na exploração de diamantes. Durante sua estada na região diamantífera, a produção cresceu vertiginosamente e a atuação do desembargador na luta contra a clandestinidade foi, deveras, salutar para que isso sobreviesse. Para resolver questões familiares e com o Reino, João Fernandes teve que partir para Portugal em 1770 de onde nunca mais voltaria. Com sua partida, observou-se uma considerável queda na extração de diamantes. Além disso, ficava no Tejuco Dona Francisca da Silva de Oliveira cujo companheiro nunca mais veria.
Nos dois últimos capítulos, Júnia Furtado, relata os “destinos” de Chica da Silva e do contratador, separados pelo Atlântico, até a morte de ambos. O desembargador morreu em 1779, em Portugal. A ex-escrava, senhora de plantel de escravos, morreu em 1796, “dona de ‘grossa’ casa”,[7] no Tejuco.  A autora assevera que

O reconhecimento social que alcançara foi demonstrado em seu sepultamento: Chica da Silva foi enterrada na tumba número 16, no corpo da igreja da Irmandade de São Francisco de Assis, que teoricamente congregava apenas a elite branca, merecedora do privilégio de dispor de todos os ritos e sacramentos funerários que distinguiam os irmãos.[8]

A descendência de Francisca da Silva de Oliveira e de João Fernandes de Oliveira viveu o privilégio promovido pela rica herança dos pais, mas muitas vezes o estigma da cor que os acompanhava causava grande desconforto. Numa sociedade em que o ser branco era relevante para o respeito e a aceitação pelo pares, “sua trajetória revela a tentativa de branqueamento como forma de se inserirem mais favoravelmente na sociedade preconceituosa que se instituía no Brasil”.[9]
Júnia Furtado fecha a obra com uma análise sobre a construção do mito Chica da Silva e com relatos sobre a sua “Memória histórica”. A autora protesta contra a criação de vários estereótipos da mulher (a partir de 1853, com Joaquim Felício dos Santos até a propagação da “estória” de Chica pela televisão e pelo cinema) que buscou por meio do concubinato sua inserção social e o controle pela própria vida. Chica da Silva não foi a única que usou desse mesmo expediente – outras mulheres, negras ou mulatas – buscaram sua integração à elite branca, objetivando, sempre, que fossem respeitadas, reconhecidas e benquistas.

Por Magda Rita R. de A. Duarte

[1] FURTADO. p. 17.
[2] FURTADO. p. 25.
[3] FURTADO. p. 29.
[4] FURTADO. p. 43.
[5] FURTADO. p. 105.
[6] FURTADO. p. 189.
[7] FURTADO. p. 245.
[8] FURTADO. p. 245.
[9] FURTADO. p. 246.